Rio Paracatu agoniza em Minas Gerais por causa da estiagem; Veja a Matéria do Globo Rural




O Rio Paracatu, principal afluente do São Francisco, agoniza no noroeste de Minas Gerais. Onde deveria haver água, hoje se vê muita pedra e poeira. A seca e o descaso aumentaram a aflição de criadores e agricultores que dependem do rio para tocar a vida.

O Rio Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, o principal afluente do São Francisco está quase sem água. Há quatro meses não chove forte na região. O nível está tão baixo que há mais ou menos dois meses, em alguns trechos é impossível navegar, porque o motor dos barcos pega na areia do fundo. No leito do rio é possível caminhar tranquilamente com água na altura do joelho.




Gerente de um clube de pesca da região, Cristiano Erig, trabalha no local há 20 anos. No álbum de fotos dele, uma lembrança: o rio com fartura de água, cheio de pescadores e muitos surubins e dourados. “É muita tristeza, porque a gente conhece o rio há muitos anos, sempre com muita água. Agora, a gente vê só praia, praia”, declara.

No Instituto Nacional de Meteorologia, em Brasília, o meteorologista Mamedes Luiz Mello, explica que a região das nascentes do Rio Paracatu recebeu pouca chuva nos últimos três anos. A média histórica é 1.300 milímetros, mas na última temporada foram só 848 milímetros. “Não chovendo na nascente, consequentemente na frente o rio vai sofrer com isso, se seus afluentes também já estão sofrendo com a falta de chuva”, explica.

O Rio Paracatu nasce no município de Lagamar, no oeste de Minas Gerais. Tem 485 quilômetros de extensão e desagua no Rio São Francisco, entre as cidades de Santa Fé de Minas e Buritizeiro.




O produtor Miguel Rodrigues Pereira vive em um sítio no município de Paracatu. Em 12 hectares, ele cria 68 vacas. No local, passava o córrego São Domingos que faz parte da bacia do Paracatu. Há dois meses o córrego secou.

A lagoa que ficava no meio do sítio também não resistiu. Água para o gado, só de uma poça lamacenta. A mulher de Miguel, dona Nívea, já pensa em deixar a terra onde nasceu e criou a família.

“Se um sítio não tem água, como que a gente vai residir aqui? Como a gente vai plantar? Como a gente vai criar os animais? Não tem como criar galinha, porco, uma vaca um cavalo, porque não tem água para beber”, lamenta Nívea Conceição Gonçalves Pereira, 68 anos.
No assentamento Buriti da Conquista, o produtor Luiz Alberto Rabelo de Sá cria 18 vacas em 40 hectares. Ele tirava ele 130 litros de leite por dia, mas a vereda secou e agora, enfrenta prejuízo. “Não tem retorno nenhum, o retorno vai tudo pro gado”, diz.




Luis conta que há dois anos não chove direito no sítio. O pasto acabou há muito tempo e que para enfrentar o período de estiagem ele gastou tudo que tinha e comprou uma silagem de milho. A quantidade não é para manter a produção de leite e sim para evitar que os animais morram de fome.

Duas vacas ficaram tão fracas por falta de alimento que atolaram no que restou das veredas e não conseguiram mais levantar.

Prejuízos para os pequenos e também para os grandes produtores. A estimativa é de que cerca de 30 mil hectares deixaram de ser plantados na região de Paracatu em junho e julho, a safra irrigada. Em uma propriedade aqui, por exemplo, de 90 hectares, por falta de água o pivô está parado e o solo nessa época que deveria ter feijão pronto para colher está seco, sem nada.




O produtor Adson Roberto Ribeiro faz parte de uma associação com outros 20 agricultores. Eles captam água para irrigação no rio São Pedro, que também abastece o rio Paracatu. Assim que perceberam que o volume de água baixou, desligaram os pivôs. “Nossa esperança é que chuvas se regularizem e que essa gestão de água se estenda não só nessa bacia, mas também em outras bacias, que o pessoal monitore as vazões dos rios, se programem para plantar, de modo que a gente tenha uma agricultura sustentável”, declara.

Mas nem todos os produtores da bacia do Paracatu deixaram de bombear a água dos rios. Várias propriedades continuam irrigando as lavouras.

A secretaria de Meio Ambiente do estado de Minas Gerais informou que nos últimos dois meses foram registradas 41 infrações e aplicados quase 300 mil reais em multas. A maior parte por captação de água acima do permitido. Nenhuma das multas foi paga, ainda cabe recurso.

O engenheiro florestal Nivaldo Monteiro, explica que os rios estão secando não só por por causa da seca dos últimos anos. “A infiltração de água no solo depende imensamente, ou da vegetação ou da utilização do solo com práticas de conservação de solo e água, que possam potencializar e compensar a recarga hídrica, mesmo com a retirada da vegetação”, esclarece o engenheiro florestal.




Para enfrentar a crise hídrica, a bacia do rio Paracatu conta com algumas ONGs, como a Movimento Verde Paracatu, do biólogo Antonio Vieira. Ele luta há trinta anos contra o desmatamento do cerrado nas nascentes da bacia. “O rio Paracatu é o maior afluente do São Francisco. Contribui com 26% da água do rio São Francisco. Então, a bacia do rio Paracatu estando nessa situação, reflete tranquilamente lá embaixo no São Francisco. A região vai penar muito, porque sem água do rio Paracatu, a região fica totalmente comprometida com seus empreendimentos, grandes, pequenos e médios. Com isso, a sociedade vai sentir o peso de você ter um rio morto, numa região que depende imensamente dele”, alerta Antônio Eustáquio Vieira, biólogo.

Em toda a bacia do rio Paracatu, vivem quase três milhões de pessoas, mas como ele é o principal afluente do São Francisco, suas águas ganham importância para as comunidades mineiras e nordestinas banhadas pelo Velho Chico.

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Fonte: Globo Rural



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