Paracatu reverencia Barbosa antes da posse na presidência do STF

Painel com imagens de Joaquim Barbosa na escola estadual Antonio Carlos, onde ele estudou, em Paracatu (Foto: Cíntia Acayaba / G1)

Verás que um filho teu não foge à luta”. O trecho do Hino Nacional é o título do painel feito pela escola estadual Antonio Carlos, em Paracatu (MG) em homenagem ao ministro Joaquim Barbosa, reconhecido como pela instituição como o “aluno mais ilustre”, que nesta nesta segunda (19) assume interinamente e, na quinta (22), permanentemente, a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF).

No centro do painel, há uma foto de Joaquim Benedito Barbosa Gomes aos 14 anos. Ao redor, imagens de um menino que representou Barbosa em desfile feito comemorativo do ingresso do ministro no Supremo, em 2003, além de fotos e dizeres do relator no julgamento do processo do mensalão,que resultou nas condenações de 25 réus, entre banqueiros, empresários e políticos.

O aluno Joaquim Barbosa, aos 14
anos (Foto: Reprodução / Cíntia
Acayaba / G1)

No próximo dia 4 de dezembro, alunos da 9ª série do ensino fundamental e do 1º ano do ensino médio apresentarão um portfólio que preparam sobre a vida de Barbosa. Eles farão pesquisas e entrevistas para narrar a história do ministro, do qual se declaram fãs – mas admitem que farão o trabalho “porque vale nota” (5, na disciplina de história).

“Quero que os alunos entendam a mensagem: ele era um menino negro, humilde, que estudou em escola pública e só venceu por meio dos estudos. Ele é o nosso orgulho”, diz Maria Inês Oliveira, vice-diretora da escola, que aproveita e pede para a repórter convidar o ministro para ir à escola, onde ele estudou entre 1968 e 1971. “Para ele explicar a importância do estudo”, afirmou.

Os estudantes repetem o mantra da vice-diretora: “Ele é um orgulho”; “venceu na vida apesar de ser negro e pobre”; “devemos seguir o exemplo dele”; “não é só rico que se dá bem na vida”.

A atmosfera da Antonio Carlos contribui para a construção do mito do herói paracatuense. Fora dos muros da escola, a coisa não é diferente. Todos conhecem Joaquim, o menino estudioso criado no bairro humilde de Paracatuzinho.

“As notas mais baixas dele eram 8”, revela a ex-diretora Dulce de Oliveira Calçado, 84 anos, que acompanhou os primeiros anos de estudo de Barbosa na escola Dom Serafim.

“Ele nunca foi chamado à sala da diretoria, mas lembro bem dele chegando com os livros dentro de uma caixa de camisa porque não tinha mochila”, conta.

Joaquim Barbosa e Dulce de Oliveira Calçado,
ex-diretora da escola onde ele estudou, durante a
festa de aniversário da mãe do ministro, em abril de
2012, em Brasília (Foto: Reprodução / Cíntia
Acayaba / G1)

Dulce se tornou amiga da família e foi convidada para a cerimônia de posse do presidente do Supremo, no próximo dia 22.

Ela exibe orgulhosa as fotos com Barbosa em sua posse como ministro do STF e na festa da mãe do magistrado, em maio deste ano. “Discreto, ele chegou ao final da festa para não ofuscar o brilho do aniversário da mãe”, disse.

Na escola Dom Serafim, onde Dulce trabalhou por 42 anos e Barbosa estudou de 1962 a 1965, todos sabem que foi “por meio do estudo que ele conseguiu chegar onde está”.

Saber onde é este “onde” e qual é o trabalho de Barbosa já é mais difícil para crianças e adolescentes de 9 a 15 anos.

“O trabalho dele é prender corrupto”, diz Jéssica Barbosa de Oliveira, 15, que tem o mesmo sobrenome do ministro. “Vai que sou parente dele. Seria bom”, sorri a menina.

Parentes, Barbosa tem muitos. São sete irmãos, filhos de Dona Benedita e do pedreiro Joaquim Barbosa. Além do núcleo central, há muitos primos distantes espalhados por Paracatu, cidade do ciclo do ouro com passado escravocrata e hoje com população majoritariamente negra.

“Fizeram um estudo antropológico aqui. Quase todo mundo é parente. Mas quando o filho é bonito, todo mundo é o pai”, diz Dario Alegria, 68, ex-jogador de futebol de grandes times nacionais, presidente do Instituto de Defesa da Cultura Negro e Afrodescendente, amigo e primo distante de Barbosa.

Monsenhor João César, pároco de Paracatu e
primo de Barbosa (Foto: Cíntia Acayaba / G1)

O pároco da cidade, Monsenhor Dom João César, 55, é primo do ministro. Mas nem precisava dizer – os dois parecem irmãos. O padre estudou na mesma época e escolas que Barbosa. Suas lembranças reforçam o imaginário sobre o aluno “estudioso” e “aplicado”.

“Uma vez, ele teve que faltar na escola por um mês. Quando ele voltou, ele fez as provas e foi melhor do que todos que estavam presentes nas aulas que ele havia faltado. A molecada ficou revoltada”, conta João César.

“Tenho cá para mim que nossa família é do grupo dos Kunta Kinte”, diz José Barbosa, 78, tio do ministro, irmão do pai, falecido há dois anos.

Kunta Kinte (também conhecido como Toby Waller) é o personagem central do romance “Raízes: A Saga de uma Família Americana”, do norte-americano Alex Haley. Segundo o escritor, os Kunta Kinte são pautados por rigorosa educação muçulmana.

“Zé” Barbosa mora no terreno onde o ministro passou maior parte da sua infância, no bairro simples de Paracatuzinho. Hoje, a casa onde Barbosa cresceu é ocupada pelo escritório do Movimento Terra e Liberdade.

José Barbosa, tio do ministro (Foto:
Cíntia Acayaba / G1)

Ele lembra do sobrinho como “líder dos meninos”. “Acho normal essa discussão com o outro ministro [Ricardo Lewandowski, com quem Barbosa protagonizou os principais embates durante o julgamento do mensalão]. É difícil ele ficar calado”, disse.

Apesar de “firme”, o ministro Barbosa é gentil e hospitaleiro com a família, segundo relatam parentes. No início do ano, o tio ficou na casa do magistrado, em Brasília, depois de fazer uma cirurgia nos olhos.

Em Brasília
Joaquim Barbosa chegou a Brasília no início dos anos 1970, e um dos primeiros empregos foi o de faxineiro no Tribunal Regional Eleitoral.

Entre os funcionários do tribunal, é comum ouvir a história de que um diretor da Casa escutou o faxineiro Barbosa cantando músicas em inglês.

O estranhamento do diretor, dizem funcionários, transformou-se em admiração e abriu portas para que o faxineiro se tornasse contínuo. Logo depois, trabalhou como compositor gráfico no jornal “Correio Braziliense” e no Senado.

O inglês, primeira entre as quatro línguas que Barbosa aprendeu, é utilizado até hoje em sua rotina. Sempre solta uma frase em inglês quando está conversando com sua equipe no gabinete ou faz anotações na língua. O francês também surge nas conversas. Fala ainda alemão e italiano.

Barbosa formou-se em Direito pela Universidade de Brasília (Unb) e depois se tornou doutor e mestre em direito público pela Universidade de Paris II.

Aprovado em concurso para oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, tentou a carreira diplomática, mas não foi selecionado na entrevista.

Consolidou a carreira jurídica no Ministério Público Federal, onde atuou de 1993 a 2003, ano em que foi indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para integrar o Supremo, convertendo-se no primeiro ministro negro da história do país.

Fonte: G1

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